Segurou então a arma que estava presa junto ao corpo. Encostado na parede, abriu a porta com um leve chute. O silêncio voltou a reinar. Não poderia arriscar a relíquia, era seu dever protegê-la. Corajosamente, pulou no corredor com a arma em punho. Olhou para um lado, para o outro, na escada, e nada – apenas um gato, lambendo o próprio corpo, distraído.
Voltou com a arma ao coldre, ajeitou os suspensórios e foi caminhando para o quarto. A mão na maçaneta e uma surpresa: estava trancada.
Ele poderia arrombar a fechadura, como ameaçou fazer. Mas preferiu murmurar:
- Louise, eu sei que você está aí. Abra a porta ou eu atirarei no ferrolho. Eu vou contar até três.
Dois sons agudos seguidos de um estalo, e ela estava lá. Louise segurava um malão e seu corpo sustentava um nínfico vestido preto, que além da cor, em nada era apropriado para uma viúva. Os adjetivos agora pulavam, em seqüência, e não eram nada cristãos. Ela não valia nada, mas tinha os melhores braços e umas pernas que diziam o quão boa dona de casa ela era para o falecido Dr. Morrison.
- Entre, bebé. Não fique parado aí na porta. Ou será que sou uma visita inesperada?
A vontade era de esmurrá-la e beijá-la até que ela não tivesse mais fôlego. Mas se fizesse isso seria a sua perdição. Começou a se vestir, para evitar aquele olhar inquisidor sobre o seu peito, camisa rota, sobretudo.
- Louise, eu vou levar a relíquia até o porto. Saia do meu caminho, eu já cumpri a minha parte no nosso acordo.
Sorrindo, ela senta numa poltrona em frangalhos. Abre a bolsa. Ele aperta a arma contra o corpo. Ela é louca, ele pensa.
- Calma, bebé. Eu só vou acender um cigarro.
E cruza as pernas tirando um isqueiro prateado da cigarreira dourada. A fumaça azul subia confundindo-se com a luz do neon que piscava moribundo na janela do quarto.
- Querido, você matou o meu marido. E agora eu não vou embarcar sozinha sem você. Ele está morto por nós dois. O Bateau Omnia parte em duas horas. Não há saída. Mas eu também posso chamar a polícia. Duvido que o Inspetor Marlowe o trate tão bem quanto eu trato.
Louca, pensou mais uma vez. E em silêncio, foi até o armário onde estava a Relíquia. Embrulhou o belo Falcão incrustado de diamantes e rubis num jornal vagabundo.
- Você matou seu marido. Louise, você só veio aqui atrás da Relíquia, e ela não será sua.
- Eu não me importo com a Relíquia! É você, bebé! Não seja tolo. A fortuna que eu herdei é suficiente para você ser meu eternamente.
E, angelical, uma alça do vestido escorregou para o ombro, deixando um pedaço generoso do seio direito exposto, para o deleite do olhar. Caminhando, arrebentou um pedaço da liga, deixando as meias de seda escorrerem pelas pernas. O cigarro, atirado no chão, foi prontamente apagado pelo salto da sandália. Louise o enlaçou de tal forma, que não havia como se mover. Os lábios estavam tão colados que ele sentia aquele hálito nauseabundo temperado de Martini.
- Eu não vou fazer nada, Louise. O jogo acabou. Vá embora, agora.
Uma lágrima solitária lavou um pedaço da maquiagem bem cuidada, mas ela não se moveu. Por fim, sorriu e olhou fixamente nos olhos pretos dele.
- Eu sempre soube que você era um covarde. Eu avisei o Inspetor Marlowe. Ele já deve estar aqui, idiota. Você vai apodrecer na cadeia e…
Com um estrondo, um homem entra do quarto com a arma em riste. Marlowe, descabelado e com os olhos injetados aponta a arma para Vincent.
- Vincent! Solte a Sra. Morrisson, agora! Relíquia e Arma no chão! Parado!
Vincent obedeceu lentamente. E levantou os braços. Louise, ao seu lado, tentava se cobrir com o lençol.
- Eu já sei de tudo, Vincent. Os responsáveis serão punidos. A lei não pode mais resolver essa situação, resolvo eu. Sra Morrison, venha até aqui.
Louise, sorrindo foi caminhando até o Inspetor, murmurando agradecimentos. Marlowe, andava de costas, para abrir a passagem para ela, quando Vincent mergulhou no chão, pegou a arma e deu três tiros nas costas da mulher. O cabelo louro e o lençol empapados de sangue.
- Vincent!
E Marlowe correu até ele, em pânico.
- Você já devia tê-la matado! Para que tanta demora?
- Ela é louca, já te disse.
Vincent guarda a arma e abraça ternamente o Inspetor Marlowe.
- A relíquia, está bem?
- Já está no cofre, faz tempo. Deixe a falsa aqui. Despistará a polícia por algum tempo.
- As passagens do Bateau Omina?
- Devem estar no malão da louca, reviste enquanto eu limpo nossas impressões digitais.
- Comprei duas garrafas de Strasbourg para nós.
- Elas são uma fortuna!
- É para nossa Lua de Mel, meu bem. E não esqueça, a partir de agora somos ingleses. E ricos.


