Posts de Julho, 2007

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Noir ou Herança Macabra

31 Julho, 2007

Segurou então a arma que estava presa junto ao corpo. Encostado na parede, abriu a porta com um leve chute. O silêncio voltou a reinar. Não poderia arriscar a relíquia, era seu dever protegê-la. Corajosamente, pulou no corredor com a arma em punho. Olhou para um lado, para o outro, na escada, e nada – apenas um gato, lambendo o próprio corpo, distraído.

Voltou com a arma ao coldre, ajeitou os suspensórios e foi caminhando para o quarto. A mão na maçaneta e uma surpresa: estava trancada.

Ele poderia arrombar a fechadura, como ameaçou fazer. Mas preferiu murmurar:

- Louise, eu sei que você está aí. Abra a porta ou eu atirarei no ferrolho. Eu vou contar até três.

Dois sons agudos seguidos de um estalo, e ela estava lá. Louise segurava um malão e seu corpo sustentava um nínfico vestido preto, que além da cor, em nada era apropriado para uma viúva. Os adjetivos agora pulavam, em seqüência, e não eram nada cristãos. Ela não valia nada, mas tinha os melhores braços e umas pernas que diziam o quão boa dona de casa ela era para o falecido Dr. Morrison.

- Entre, bebé. Não fique parado aí na porta. Ou será que sou uma visita inesperada?

A vontade era de esmurrá-la e beijá-la até que ela não tivesse mais fôlego. Mas se fizesse isso seria a sua perdição. Começou a se vestir, para evitar aquele olhar inquisidor sobre o seu peito, camisa rota,  sobretudo.

- Louise, eu vou levar a relíquia até o porto. Saia do meu caminho, eu já cumpri a minha parte no nosso acordo.

Sorrindo, ela senta numa poltrona em frangalhos. Abre a bolsa. Ele aperta a arma contra o corpo. Ela é louca, ele pensa.

- Calma, bebé. Eu só vou acender um cigarro.

E cruza as pernas tirando um isqueiro prateado da cigarreira dourada. A fumaça azul subia confundindo-se com a luz do neon que piscava moribundo na janela do quarto.

- Querido, você matou o meu marido. E agora eu não vou embarcar sozinha sem você. Ele está morto por nós dois. O Bateau Omnia parte em duas horas. Não há saída. Mas eu também posso chamar a polícia. Duvido que o Inspetor Marlowe o trate tão bem quanto eu trato.

Louca, pensou mais uma vez. E em silêncio, foi até o armário onde estava a Relíquia. Embrulhou o belo Falcão incrustado de diamantes e rubis num jornal vagabundo.

- Você matou seu marido. Louise, você só veio aqui atrás da Relíquia, e ela não será sua.
- Eu não me importo com a Relíquia! É você, bebé! Não seja tolo. A fortuna que eu herdei é suficiente para você ser meu eternamente.

E, angelical, uma alça do vestido escorregou para o ombro, deixando um pedaço generoso do seio direito exposto, para o deleite do olhar. Caminhando, arrebentou um pedaço da liga, deixando as meias de seda escorrerem pelas pernas. O cigarro, atirado no chão, foi prontamente apagado pelo salto da sandália. Louise o enlaçou de tal forma, que não havia como se mover. Os lábios estavam tão colados que ele sentia aquele hálito nauseabundo temperado de Martini.

- Eu não vou fazer nada, Louise. O jogo acabou. Vá embora, agora.

Uma lágrima solitária lavou um pedaço da maquiagem bem cuidada, mas ela não se moveu. Por fim, sorriu e olhou fixamente nos olhos pretos dele.

- Eu sempre soube que você era um covarde. Eu avisei o Inspetor Marlowe. Ele já deve estar aqui, idiota. Você vai apodrecer na cadeia e…

Com um estrondo, um homem entra do quarto com a arma em riste. Marlowe, descabelado e com os olhos injetados aponta a arma para Vincent.

- Vincent! Solte a Sra. Morrisson, agora! Relíquia e Arma no chão! Parado!

Vincent obedeceu lentamente. E levantou os braços. Louise, ao seu lado, tentava se cobrir com o lençol.

- Eu já sei de tudo, Vincent. Os responsáveis serão punidos. A lei não pode mais resolver essa situação, resolvo eu. Sra Morrison, venha até aqui.

Louise, sorrindo foi caminhando até o Inspetor, murmurando agradecimentos. Marlowe, andava de costas, para abrir a passagem para ela, quando Vincent mergulhou no chão, pegou a arma e deu três tiros nas costas da mulher. O cabelo louro e o lençol empapados de sangue.

- Vincent!

E Marlowe correu até ele, em pânico.

- Você já devia tê-la matado! Para que tanta demora?
- Ela é louca, já te disse.

Vincent guarda a arma e abraça ternamente o Inspetor Marlowe.

- A relíquia, está bem?
- Já está no cofre, faz tempo. Deixe a falsa aqui. Despistará a polícia por algum tempo.
- As passagens do Bateau Omina?
- Devem estar no malão da louca, reviste enquanto eu limpo nossas impressões digitais.

- Comprei duas garrafas de Strasbourg para nós.

- Elas são uma fortuna!
- É para nossa Lua de Mel, meu bem. E não esqueça, a partir de agora somos ingleses. E ricos.

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Naquele dia (ou do nascimento de algo)

27 Julho, 2007

Foi quando você me contou do homem, que vejam bem, colocava as mãos, os braços, a cabeça e finalmente se enfiava quase até a cintura dentro de um crocodilo gigante que dormitava na beira de um rio. E continuou: é preciso não confiar no animal, é preciso saber que caso a carne fale mais alto, o homem será comido, mesmo que todos se espantem; durante anos e anos ele o alimentou, cuidou e se enfiou goela abaixo, mas um crocodilo é um crocodilo que é um crocodilo.

O dia estava muito frio e eu fiquei com isso na cabeça depois que nos despedimos; no ônibus não havia livros ou fones e na hora do rush os sons da avenida lembravam “é um crocodilo, que é um crocodilo”. E aconteceu então, da palavra dissociar-se completamente das presas de saliva, dos olhos injetados, da boca aberta, da aparência de mais ancestral de todas as ancestralidades: o crocodilo era sílabas tão sonoras e engraçadas que podiam estar num conto infantil, repetindo-se infinitamente, os primeiros fonemas estalando pelo ar, os últimos, macilentos, denunciando a sordidez do seu representante no mundo das coisas.

A sua voz pairava no ar “é um crocodilo, que é um crocodilo” e eu o amei por dar-me de bom grado a palavra que tanto me alegrou. As luzes poluídas transformaram o céu num pega-fogo sem fim, sem horizonte, sem nada e os desenhos estampados no alto me deram algo mais para afogar meu peito. É um crocodilo, murmurei, agora cansada da minha descoberta e o animal foi voltando ao seu lugar imaginado e também seu homem dividido ao meio. Lembrei que talvez perguntasse mais – Era um homem da Austrália? – mas isso denunciaria meu total desinteresse na história e me jogaria num lugar da dúvida mais profunda.

Acredito que depois daquele dia as coisas continuaram exatamente iguais ao que eram antes. Não fui mais triste e nem mais alegre (e na estação de metrô as mesmas pessoas passam e passarão) mas desde então fiquei a procurar palavra que mesmo sem justificativa lógica me puxasse as pontas dos lábios para cima e a encontrei no seu nome, no seu nome, no seu nome.

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Copião

24 Julho, 2007

Calava.
Mas no íntimo sabia ser muito parecida com aquela moça do cinema, principalmente quando esta usava peruca com cabelos curtos. A história também. No primeiro filme, levantou-se, espantada com o susto. Não viu o fim. Só tomou coragem quando o jornal anunciou o sucesso saindo de cartaz. Sabia então que teria mais algumas semanas nas salas de arte, circuito dos atrasados. Mas não quis arriscar.
A cidade inteira contava das desventuras da nova e brilhante estrelinha de Hollywood. Dentro e fora das telas, sofrendo como uma condenada, com delicadeza, sutileza, eza eza!, meu deus, que atuação!, clamavam os críticos nas mesas de bar. Do lado de fora da sala de exibição, ela levava, mesmo sabendo que não ia chover, um guarda-chuva branco com bolinhas em azul marinho e torcia demais para que alguém reconhecesse a semelhança, mas era algo tão escondido o desejo que nem ela sabia de que parte do corpo vinha.

No segundo filme, estremeceu até. Como aquele homem pode?, era igual. Não se sentia espionada, tampouco simbiótica, embora agora tivesse quase certeza que a moça de sobrenome esquisito compartilhava de alguma forma a sua alma, sua psiquê e talvez até um pouquinho de seu corpo. Resignação. Dúvida única: seria o inverso verdadeiro? Abanou as mãozinhas como que para espantar o pensamento besta. Mas aí o telefone tocou e foi exatamente no momento em que ela entrava no ônibus. Adivinhou é claro, que seria ele. Com a atriz, duas horas atrás, foi igual. Melhor se resignar e esperar que a trama se cumpra e voltar a viver a vida dos mortais.

Já no terceiro filme era terrível a notícia. Terrível. Sofria em marcação: como se o mundo estivesse listrado de fitas crepe na calçada, parava, virava-se acendia um cigarro improvável e improvavelmente o apagava, com pausas dramáticas. Caso ela morresse, caso ela fosse para o céu, e pior, se ela enlouquecesse ou ficasse encarcerada durante muitos e muitos anos, ou se jogasse na frente do trem? Só falavam em tragédia, das gregas, das grandes, das olímpicas. Não leu os jornais. Apenas fazia de forma obediente o ritual e esperava para que a fila da primeira sessão do dia começasse a andar. E andou. E na frente da porta escancarada não quis delegar seu destino à escuridão: diante do olhar abestalhado do bilheteiro, deu meia volta

E não mais fez volta e meia.

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O Épico Romance de Rosa D.

18 Julho, 2007

Imaginem uma virgem
Sobrenome Desolé
Que passeia entre os prédios
De uma cidade ocupada

Vulgar nome de flor
Ordinário e tão cliché
Que a moça, desairosa
Mudou de figurino

Andou nas avenidas
Do campo de batalha
E todo mundo viu
Com a cara estatelada

Chamaram-na Hilda, Hildinha
Chamaram-na Carmen, Carminha
E todos os nomes
Das primas de Bovary
Até de Julia Roberts
Ousados!

Não levou a cabo ser feliz
A agora antiga virgem
Mudar de nome
Não transformou sua linhagem
Nem a linhagem dos homens
Que cismam em ciscar

Imaginem a perdida
Sobrenome Desolé
Que caminha sobre si mesma
Agora um corpo desabitado.

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Julho

12 Julho, 2007

Foi então que ela me perguntou, mezzo histérica, mezzo calma-fria-calculada com pausas nas exatas vírgulas:

- Por que alguém ainda paga por sexo?

Quis responder que minhas antigas namoradas jamais usariam uma calcinha de tule rosa chiclete bordada com pedrinhas coloridas. E que eu pretendia que minhas futuras amantes também não o fizessem, mas acho que isso a ofenderia, afinal, ela ainda se atracava com a parte de cima do conjunto, tentando em vão que as pedrinhas coloridas do sutiã não enroscassem nos cabelos.

O neon vermelho, vermelho e depois azul do letreiro da boate da frente piscava no corpo dela. Acendi a lâmpada. Parecia muito mais jovem do que a sua língua (em todos os aspectos de língua, verbal e não-verbal), mas era impossível precisar sua idade. Como ela conseguia vestir durante tanto tempo tão pouca roupa? Bati no colchão num gesto que significava “sente aqui, menina”. Obedeceu, desajeitada, ainda fechando o zíper das botas. Deitei então sua cabeça em meu peito. Depois de alguns minutos, a empurrei para minha barriga e finalmente para o meu pau.

- Não, não faça nada.

Ignoram, todas elas, mas deveriam saber: fico muito sentimental durante o inverno.