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Diário

14 Setembro, 2007

Falou que era atriz e que fazia muitos clipes demonstrativos. Não perguntei o que eram, mas o trabalho envolvia carrosséis, piscinas com bolas e praias paradisíacas em croma. Fingi que entendi e continuei sorrindo, gesticulando, concordando com a cabeça assim-assim.

Uma vez contou-me que carregava sempre uma tesoura para alguma emergência. Eu disse que carregava comigo papéis e lápis para emergências semelhantes. Ela abriu a bolsa e mostrou que também tinha blocos e canetas e recomendou: talvez não seja suficiente. Passei a ter uma tesoura sempre a mão, para o caso de encontrá-la.

Durante uma bebedeira no bairro oriental ela apareceu com uma garrafa quebrada na mão e ordenou: saia! saia! Peguei sua mão e descemos correndo as ladeiras até o metrô mais próximo. Foi aí que nos beijamos, ela foi pelas escadas e eu caminhei a esmo sem saber pra onde ia.

Algumas semanas depois apareceu na portaria de meu prédio. Tinha flores e pediu para subir. As flores não eram para mim, mas as coloquei em um vaso com água gelada e aspirina. Falou sobre Londres, trens, um emprego com dois Espanhóis bacanas, e da amizade com a moça bonita, aquela, da Nicarágua. A aspirina fez um volteio bonito. O vaso ficou pintado de gotículas. Ela queria uma coca-cola, eu desci no bar para buscar. Na volta, ela dormia no sofá de listras verdes.

Ela dorme. É a única na cidade que ainda sabe dormir