
Viagens por lugares inexistentes da América, parte 3.1.
2 Outubro, 2007
Ilustração: Felipe Fernandes
Foi no ano dos grandes vendavais que Lupita Marcone morreu. Ficaram cuidando de seu Dance Club o menino Juanito, que fazia a limpeza, e o velho e caduco Elmo Marcone que contava histórias da época em que o estabelecimento ficava na rota dos mineiros e traficantes de pedras: não havia um homem fosse da Seara de Mattos fosse de Paradise´s Port que não soubesse da formosura de suas meninas. Bons tempos.
- Não é Juanito?
Juanito lá chegara quando o comércio de pedras e das moças já não era mais tão dourado.
- É sim, seu Elmo. Uma belezura.
E os dias passavam. Juanito e o deserto, que antes lutavam entre si (Juanito usava uma vassoura, o deserto usava um vento manso) tornaram-se aliados. Ele fechava as janelas e portas nas horas certas, punha a mula próxima ao poço, que ela não se incomodava de beber água com areia; ia se deitando junto com o sol, fugia do frio e das resmungações do velho. Com o tempo, as palmas de suas mãos foram ficando amarelas e seus olhos refletiam as nuvens que apareciam vez em nunca. Ali sua baixa estatura era vantajosa. Foi ficando sólido, foi ficando homem, foi ficando negro como os povos do sol.
Foi no ano das cinco tormentas que Juanito começou a pensar que seria bom ver o mar. E não sentia culpa por abandonar o deserto, pois os anos o presentearam com uma certeza: o deserto jamais o deixaria, acontecesse o que acontecesse. Isso lhe dava a paz necessária. Na noite da conclusão deitou-se no pátio interno e ficou ali a fumar e ver estrelas, quando sem mais nem menos uma bola de fogo cruzou o céu. Correu para o lado de fora e ainda teve tempo de ver a bola se tornar um ponto no horizonte e cair com um estrondo. Tudo tremeu. Juanito correu para ver o velho Elmo e foi atravessando a casa, mas quando abriu a segunda porta parou. Estava sentada, ajeitando o vestido uma mulher. Com maleta de couro, sapatos de dança, rouge, carmim e cabelo preso no alto ela estava distraída. Realmente o tremor, o fogo e o estrondo haviam passado. Mas ela parecia não ter ouvido mesmo nada pois levantou os olhos, impassível e estendeu uma mão firme e branca dizendo que se chamava Carola Desadin e que deviam conhecê-la como La Magnifica Carola. Lupita a havia convidado para ser a estrela do Dance Club. Onde estava a velha? Desajeitado pela primeira vez em sua solidez Juanito fez com as mãos para que Carola esperasse. Foi conferir, mas já sabia: o velho Elmo era morto. Decerto o estouro da explosão o matara.
Depois de cobrir o corpo com o lençol, desceu pesado, com as escadas quase cedendo aos seus pés. Tenho um morto, informou à Carola, volto em breve. Seguiu para perto do poço e cavou o mais fundo que pode. Atrás de Juanito, um som de saltinhos. Carola parou na soleira da porta e começou a observar aquele árido cortejo fúnebre: a mula, o poço, Juanito e o morto. Ao fim de tudo, Juanito ajoelhou e fez uma prece rápida. Amanhã fincarei uma boa cruz aqui, falou para si mesmo, espanando a areia dos joelhos.
Continua.
muito bom, muito bom…, isso aí dá muito pano pra manga essa história…
ansioso pela continuação.
a américa e seus lugares inexistentes. essa série é uma delícia de ler, vc sabe que adoro seus escritos, mas esses são especiais. beijos azuis de saudade, minha amiga estrela.
ah! o coração de poeta cresceu, é bem maior que o tórax de superman.
amiga, querida, adorei o texto. Dá pano, corda e fita para muita continuação. acho sua capacidade de abstração incrível, quero ser que nem vc um dia. beijos enormes.
Muito bom. Fiquei curioso. Que venha logo o próximo. Beijo.
Vou te dizer: sua prosa é bela e envolvente como só as mulheres e as palavras sabem ( e podem) ser!