O Verão de Ana María
Para aqueles que sabiam, esse fabuloso verão estava cravado nas memórias sombrias de uns quinze ou mesmo vinte anos atrás. Porém, a bela Carola Desadín era rápida ao afirmar:
- Eu era uma criança, mas lembro, rapaz. Foi o ano dos pirulitos de goma e do bambolê. Eu era campeã no bambolê. Não faz mais de dez anos.
E sorria as finas rugas a iluminar os olhos claros. Imprecisões a parte, propositais ou não, foi o verão em que o General Abelardo Missuto subiu ao poder, jogando a goma dos pirulitos ou a discussão sobre quem era a menina mais rebolativa do Bairro do Cabo para um tenebroso segundo plano.
A rainha das matinês no Cabo era Carola Caiz. A menina era a melhor coisa do domingo, Deus me perdoe, depois da igreja e do almoço com as avós que na época tinham nomes como Catarina e Heleonora, é claro. O mundo dividia-se, plácido, entre dois grupos: a turma que não tinha idade para entrar na matinê fazia fila para jogar pelada no campinho ao lado e azucrinar os casais fugidios que usavam os fundos do baile pra namorar e a turma que escondia nos bolsos garrafinhas do horrendo uísque Santa Serra e ia pro baile tentar embebedar e apalpar alguma menina, que seria levada para o campo e que seria azucrinada pelos mais novos. Carola, espertíssima, jamais ia com os meninos. Dançava a noite toda até os pés esfolarem, e depois, pontualmente às onze horas, se retirava, indo desaparecer dentro da limousine negra que a levava, supomos naquela época, a um palácio digno de sua condição de princesa. Às vezes trazia uma amiga que também de forma alguma sucumbia ao flertes desajeitados. Mas um dia foi diferente.
Foi um grande assombro quando Carola Caiz desceu tão coquete da limousine negra trazendo Ana María a tiracolo. Seria muito doloroso ter que conviver com duas pequenas deusas inalcançáveis, pois apesar da diferença gritante entre a beleza de ambas, era inegável que nos desprezariam de forma igualitária e democrática. Entraram sem tomar conhecimento da comoção que causavam, já cochichando, e dando risinhos, ao que Carola fazia gestos como se comentasse quem era quem naquela nossa inocente simulação de high society adolescente com fundo musical de rock melosinho.
Aquele baile foi o baile mais memorável de todo o verão. A noite passava e Ana María se mostrava uma rival a altura de Carola, fazendo as sapatilhas rangerem no piso de madeira, sem interrupção. Ciente de que as atenções se dividiam depois de um reinado único, Carola não se contentou e dançou com todos os meninos da Rua Oito de Abril, os rejeitados da oito, pois eram pobres, e tinham o Carlito que era manco da perna esquerda, e para piorar, dizia-se por aí, roubavam carros para ir até o Píer fazer duelo de mergulhos. Pois nessa noite até Carlito foi talentoso e mostrou que dançar com uma perna só pode até ser vantajoso se o que você deseja arrancar das meninas são risos e não beijos. Nessa noite o escuro do céu se rendia às milhões e milhões de estrelas que a vestiam e não satisfeitas se reproduziam no mar calmo e negro. Era a noite certa. Era a noite que seria estampada na memória todas as vezes que nos lembrássemos de qualquer dia do verão passado. Era a noite de Carola e Ana María. E exatamente as onze, essa noite terminou, com nossas meninas suadas e sorridentes, já descalças, fechando definitivamente a porta da limousine, bem na cara das nossas fantasias.
No domingo seguinte, nem Carola, nem Ana María apareceram. E o comentário na cidade era geral, o burburinho era grande. Os pais ignoravam as perguntas insistentes de tantos jovens apaixonados, saudosos do jogar de ombros das meninas quando a uma música agitada se sucedia uma melodiosa versão de Ticket to Ride. Mas o mistério não durou muito tempo, pois logo o jornal da tarde estampou a cara do venerável Senhor Martino Locustre Caiz, pai de Carola, com uma legenda em letras garrafais onde se lia SUBVERSIVO. O homem, dono de quase todos os jornais da região, financiava por baixo dos panos os tablóides que denunciavam os desmandos, assasinatos e roubos do General Abelardo Missuto. Pai e filha estavam desaparecidos, mas a imprensa não oficial dava como certo o exílio de toda a família Locustre Caiz na embaixada francesa. Destino muito melhor que a dos editores do tablóide Brigada Vermelha, mortos sumariamente no episódio que devastou a redação clandestina, as chamas do incêndio subindo pelo céu, se abatendo como um mau agouro por toda a cidade.
Nas ruas do Cabo uma única pessoa chorava mais do que a morte do Brigada Vermelha: Ana María, no alto dos seus doze anos, agora só podia catar as guimbas de cigarro na sarjeta e esperar que a sorte mudasse para melhor depois de ver seus pais, o casal Desadín de ex-guerrilheiros, saindo, já mortos, de dentro da redação. O centro da cidade podia ser um lugar muito difícil para uma menina como Ana María, e não ser Ana María podia ser uma saída. Vagou. Conheceu toda ordem de vagubundos, poetas, cantores, artistas, contrabandistas e ciganos. Principalmente ciganos, que sempre ao vê-la arregalavam os olhos e murmuravam entre si sobre o deserto e a estrela.
Semanas depois, na porta do Café Cinémathèque, Ana María conheceu Lupita Marcone. E ela lhe ensinou a fugir de marujos. E a deixar para trás o passado. E foi assim que Ana María tornou-se Carola Desadín, corista, vendedora de badulaques, amante dos homens, da bebida, da noite e dos palcos, ah!, dos palcos, de onde, por vontade, jamais sairia.
