Manolo, a quem o destino nunca dera sequer a possibilidade de levantar a voz para alguém, via, com grande surpresa, a mão fechada crescendo na sua direção numa velocidade que o fez incapaz de se esquivar. Por que tenha certeza: se pudesse, Manolo abaixaria. Mas não deu.
No bairro oriental, Felipa fazia anotações mentais: um pássaro morto. Seu rosto tremido refletido na água. Os pés de uma criança pisando algo grudento. Estaria descalça? Logo pegou o caderno e numa letra sem prática escreveu: coisas para serem fotografadas quando eu tiver uma câmera. E sublinhou este cabeçalho.
Da recepção da imobiliária Orion, Felipa via a calçada vazia, do bairro vazio onde as pessoas nunca alugavam casas que por isso estavam sempre vazias. E nesta terça-feira Felipa viu o homem que depois de receber o soco ficou sentado na calçada, sem perplexidade, apenas aparando sem jeito o sangue do nariz. Sem papel, e sem lenço, Felipa pegou o jornalzinho do bairro e foi até lá. E foi com o sangue escorrendo entre o curso de inglês Wizard e a casa de massagem Bella Donna que Manolo conheceu a mulher mais bonita que havia visto na vida.
A mulher chamava-se Felipa, como já sabemos, mas o que nem nós nem Manolo sabíamos é que ela jamais sonhou em ser considerada bonita. Qualquer elogio naquele momento soaria deslocado. E Manolo pressentindo talvez isso, ou talvez apenas evitando um novo revés dada sua maré de falta de sorte, calou-se.
Ferimento limpo e esclarecido que nenhum estranho, ainda mais sangrando, poderia usar o banheiro da imobiliária Orion, Felipa pediu um contato, um número de telefone ou qualquer coisa para que alguém buscasse Manolo. Claro, não há – não há agenda ou memória, ou ele mente por vergonha ou ele diz a verdade com vergonha mesmo. Felipa insiste. Não, não existe agenda ou memória. Não quer chamar um táxi?, não, vou mesmo andando é tão perto e Felipa viu os olhos tão pretos e minúsculos que lhe faltava branco: olhos como os olhos de um pássaro, sem pupilas. Desejou no mesmo instante mudar o escrito do caderno e não mais fotografar um pássaro morto, mas sim um vivo, talvez um pardal, talvez um pombo. Mas foi tão rápido o pensamento que logo esqueceu.
Manolo levantou-se e agradeceu, já caminhando ladeira abaixo e Felipa, parada, observava agora o fio vermelho no jornal escorrendo entre a coluna social e as dicas de beleza. Foi-se Manolo na primeira esquina e Felipa voltou ao seu posto, ouvindo sem ouvir as reclamações da sua colega de recepção.
Lá fora, nenhuma folha se mexe e o sol resolveu aparecer.
