Derreto o açúcar aveludado na língua: a colher fria, emborcada na boca, se demora, demora.
Já disseram que é assim que funciona, já disseram que não sou a única, já disseram que bastava olhar a minha esquerda, já disseram tudo e tanta coisa, eu mesma não posso avaliar: choro. Rio como doida. Pego ônibus. Vou ao trabalho. Leio notícias nos jornais. Extremo do extremo: falo ao telefone. Como posso eu, ainda, falar ao telefone?
Derreto o açúcar aveludado na língua: a fria colher, emborcada na boca, se demora, demora.
Escrevo na carne dele uma história triste, um conto de abandono, um romance adocicado. A moça, vejam bem, encantada, não o reconhece. Depois de tantos esforços para trazê-la de volta ao mundo, o fracasso. Abandonada pela razão, ela afoga-se no rio, só podemos enxergar seus cabelos flutuando contra as pedras, numa clara sugestão da sua morte. Esperamos, inutilmente que venha um artíficie sobrenatural (Deus. Fadas.) que acorde a moça de seu sono encharcado. Mas nada vem. Nada.
Derreto o açúcar aveludado na língua: a fria colher, emborcada na boca, se demora, demora.
Limpo com o cotonete minúsculas pecinhas de porcelana. Mini-caixinhas. Vasinhos. A poeira: invasora. Apossa a olhos vistos lustres, aparadores, bancadas, prateleiras. Nesses casos ela é varrida sem sobressalto. Já nas pequenas coleções, nas frágeis porcelanas, ela pouco a pouco se instala. Aproveita-se, para que, com tempo e sorte, ninguém a veja e assim possa amalgamar-se ao objeto e aproveitando-se da umidade poder colar-se a qualquer superfície, principalmente as imunes, principalmente as lisas, principalmente as antes invioláveis. As arestas ficam inalcançáveis e as quinas enegrecem de forma insuspeita e silenciosa. Venceram, afinal.
