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Porcelana

9 Junho, 2009

Derreto o açúcar aveludado na língua: a colher fria, emborcada na boca, se demora, demora.

Já disseram que é assim que funciona, já disseram que não sou a única, já disseram que bastava olhar a minha esquerda, já disseram tudo e tanta coisa, eu mesma não posso avaliar: choro. Rio como doida. Pego ônibus. Vou ao trabalho. Leio notícias nos jornais. Extremo do extremo: falo ao telefone. Como posso eu, ainda, falar ao telefone?

Derreto o açúcar aveludado na língua: a fria colher, emborcada na boca, se demora, demora.

Escrevo na carne dele uma história triste, um conto de abandono, um romance adocicado. A moça, vejam bem, encantada, não o reconhece. Depois de tantos esforços para trazê-la de volta ao mundo, o fracasso. Abandonada pela razão, ela afoga-se no rio, só podemos enxergar seus cabelos flutuando contra as pedras, numa clara sugestão da sua morte. Esperamos, inutilmente que venha um artíficie sobrenatural (Deus. Fadas.) que acorde a moça de seu sono encharcado. Mas nada vem. Nada.

Derreto o açúcar aveludado na língua: a fria colher, emborcada na boca, se demora, demora.

Limpo com o cotonete minúsculas pecinhas de porcelana. Mini-caixinhas. Vasinhos. A poeira: invasora. Apossa a olhos vistos lustres, aparadores, bancadas, prateleiras. Nesses casos ela é varrida sem sobressalto. Já nas pequenas coleções, nas frágeis porcelanas, ela pouco a pouco se instala. Aproveita-se, para que, com tempo e sorte, ninguém a veja e assim possa amalgamar-se ao objeto e aproveitando-se da umidade poder colar-se a qualquer superfície, principalmente as imunes, principalmente as lisas, principalmente as antes invioláveis. As arestas ficam inalcançáveis e as quinas enegrecem de forma insuspeita e silenciosa. Venceram, afinal.

Um comentário

  1. “Leio as noticias no jornal, são iguais
    Faço um chá para nós dois, você se foi
    Mas hoje me deu uma sensação, um sentimento de grandeza, uma vontade de dizer,
    voe, voe, voe querida”



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