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Coelho

11 agosto, 2010

E no momento derradeiro, o coelho.  Assim encerraria sua bem sucedida apresentação, afinal, fitas infinitas, moedas insuspeitas, e assistentes desaparecidas são apenas o preâmbulo excitante para que, finalmente, branco e assustadiço, o animal saia da cartola.

Era a última festa do dia, e após o magnífico encerramento, com direito a aplausos infantis, ele poderia voltar ao seu pequeno apartamento e exercitar a mágica pura e verdadeira, a alquimia boa. O coelho mastigaria tristemente seu pé de alface, e ele, logicamente ele, tentaria levitar, ou zapear, ou coisa parecida, depois de pedir pelo telefone uma pizza fria e amarela. E para concretizar essa felicidade, enfiou a mão na cartola:

Sentiu nos dedos a carapaça dura e oca. No lugar de longas orelhas algodoadas, um cone pontiagudo, desafiador. Puxou. Um urro. Puxou novamente. Nada se movia. Puxou então com força – um chifre se pronunciou. Sentado no chão, o mágico, com ajuda dos pés e da assistente de maiô, arrancava da cartola uma besta cinzenta de olhos bovinos. E no palco do buffet infantil, em meio a palhaços resignados e pais bebados de cerveja quente, o rinoceronte.

- Infelizmente, não poderemos pagá-lo. Nosso contrato era claro quanto a coelhos. Não existindo coelho, não há cachê.

Deu de ombros. Amarrou no pescoço do rinoceronte sua gravata de mágico e na noite fria, por uma avenida movimentada, pôs-se a caminhar para casa, arrastando a criatura. Naquela madrugada, remoeu não ter praticado mais vezes os números que compunham aquele espetáculo.

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