Arquivo da categoria ‘Eu Conto’

h1

Canto de Água

7 Outubro, 2009

* poesia perdida, escrita por mim e encontrada por alexandre beanes. :) Antes ela se chamava Das Garrafas.

Da primeira garrafa

Lembro do agudo estridente

E das outras

Não sei

Jogadas ao mar

Com meu grito

Com meu alerta

Com minha estranha maneira

De selar mensagens

De jogar ao mar

Entranhas

Da primeira garrafa

Conheço o alento

Imediato

E das outras

Ainda não sei

Jogadas ao mar

Com minhas notas

Com meus bilhetes

Com minhas contas a pagar

Com as moças chorosas

Com a mãe chorosa

E com mais quem quiser chorar

h1

Porcelana

9 Junho, 2009

Derreto o açúcar aveludado na língua: a colher fria, emborcada na boca, se demora, demora.

Já disseram que é assim que funciona, já disseram que não sou a única, já disseram que bastava olhar a minha esquerda, já disseram tudo e tanta coisa, eu mesma não posso avaliar: choro. Rio como doida. Pego ônibus. Vou ao trabalho. Leio notícias nos jornais. Extremo do extremo: falo ao telefone. Como posso eu, ainda, falar ao telefone?

Derreto o açúcar aveludado na língua: a fria colher, emborcada na boca, se demora, demora.

Escrevo na carne dele uma história triste, um conto de abandono, um romance adocicado. A moça, vejam bem, encantada, não o reconhece. Depois de tantos esforços para trazê-la de volta ao mundo, o fracasso. Abandonada pela razão, ela afoga-se no rio, só podemos enxergar seus cabelos flutuando contra as pedras, numa clara sugestão da sua morte. Esperamos, inutilmente que venha um artíficie sobrenatural (Deus. Fadas.) que acorde a moça de seu sono encharcado. Mas nada vem. Nada.

Derreto o açúcar aveludado na língua: a fria colher, emborcada na boca, se demora, demora.

Limpo com o cotonete minúsculas pecinhas de porcelana. Mini-caixinhas. Vasinhos. A poeira: invasora. Apossa a olhos vistos lustres, aparadores, bancadas, prateleiras. Nesses casos ela é varrida sem sobressalto. Já nas pequenas coleções, nas frágeis porcelanas, ela pouco a pouco se instala. Aproveita-se, para que, com tempo e sorte, ninguém a veja e assim possa amalgamar-se ao objeto e aproveitando-se da umidade poder colar-se a qualquer superfície, principalmente as imunes, principalmente as lisas, principalmente as antes invioláveis. As arestas ficam inalcançáveis e as quinas enegrecem de forma insuspeita e silenciosa. Venceram, afinal.

h1

A invenção do amor

24 Abril, 2008

E não existia história, por que não existia escrita. E ele era agricultor e pequeno negociante de ferramentas simples.

Um belo dia esqueceu em sua casa as sacolas de cereais. Isso acontecia com frequência, por isso nosso herói já tinha encontrado uma solução, pois não podia sair de seu estabelecimento, e nem ela abandonar as funções domésticas e maternas: combinaram sinais, que riscados por um objeto pontiagudo na madeira significavam os objetos perdidos.

Neste dia não foi diferente. Mas tomado por uma epifania de gratidão, entregou ao escravo a pequena tábua que não apenas dizia “saco de milho” como também uma tosca figura humana e um imenso coração, representando si mesmo.

E ela compreendeu. E desde então, nunca mais o milho foi o mesmo.

h1

Fragmento #1

13 Fevereiro, 2008

Manolo, a quem o destino nunca dera sequer a possibilidade de levantar a voz para alguém, via, com grande surpresa, a mão fechada crescendo na sua direção numa velocidade que o fez incapaz de se esquivar. Por que tenha certeza: se pudesse, Manolo abaixaria. Mas não deu.

No bairro oriental, Felipa fazia anotações mentais: um pássaro morto. Seu rosto tremido refletido na água. Os pés de uma criança pisando algo grudento. Estaria descalça? Logo pegou o caderno e numa letra sem prática escreveu: coisas para serem fotografadas quando eu tiver uma câmera. E sublinhou este cabeçalho.

Da recepção da imobiliária Orion, Felipa via a calçada vazia, do bairro vazio onde as pessoas nunca alugavam casas que por isso estavam sempre vazias. E nesta terça-feira Felipa viu o homem que depois de receber o soco ficou sentado na calçada, sem perplexidade, apenas aparando sem jeito o sangue do nariz. Sem papel, e sem lenço, Felipa pegou o jornalzinho do bairro e foi até lá. E foi com o sangue escorrendo entre o curso de inglês Wizard e a casa de massagem Bella Donna que Manolo conheceu a mulher mais bonita que havia visto na vida.

A mulher chamava-se Felipa, como já sabemos, mas o que nem nós nem Manolo sabíamos é que ela jamais sonhou em ser considerada bonita. Qualquer elogio naquele momento soaria deslocado. E Manolo pressentindo talvez isso, ou talvez apenas evitando um novo revés dada sua maré de falta de sorte, calou-se.

Ferimento limpo e esclarecido que nenhum estranho, ainda mais sangrando, poderia usar o banheiro da imobiliária Orion, Felipa pediu um contato, um número de telefone ou qualquer coisa para que alguém buscasse Manolo. Claro, não há – não há agenda ou memória, ou ele mente por vergonha ou ele diz a verdade com vergonha mesmo. Felipa insiste. Não, não existe agenda ou memória. Não quer chamar um táxi?, não, vou mesmo andando é tão perto e Felipa viu os olhos tão pretos e minúsculos que lhe faltava branco: olhos como os olhos de um pássaro, sem pupilas. Desejou no mesmo instante mudar o escrito do caderno e não mais fotografar um pássaro morto, mas sim um vivo, talvez um pardal, talvez um pombo. Mas foi tão rápido o pensamento que logo esqueceu.

Manolo levantou-se e agradeceu, já caminhando ladeira abaixo e Felipa, parada, observava agora o fio vermelho no jornal escorrendo entre a coluna social e as dicas de beleza. Foi-se Manolo na primeira esquina e Felipa voltou ao seu posto, ouvindo sem ouvir as reclamações da sua colega de recepção.

Lá fora, nenhuma folha se mexe e o sol resolveu aparecer.

h1

Viagens por lugares inexistentes da América, parte 3.2 ou

3 Dezembro, 2007

O Verão de Ana María

Para aqueles que sabiam, esse fabuloso verão estava cravado nas memórias sombrias de uns quinze ou mesmo vinte anos atrás. Porém, a bela Carola Desadín era rápida ao afirmar:

- Eu era uma criança, mas lembro, rapaz. Foi o ano dos pirulitos de goma e do bambolê. Eu era campeã no bambolê. Não faz mais de dez anos.

E sorria as finas rugas a iluminar os olhos claros. Imprecisões a parte, propositais ou não, foi o verão em que o General Abelardo Missuto subiu ao poder, jogando a goma dos pirulitos ou a discussão sobre quem era a menina mais rebolativa do Bairro do Cabo para um tenebroso segundo plano.

A rainha das matinês no Cabo era Carola Caiz. A menina era a melhor coisa do domingo, Deus me perdoe, depois da igreja e do almoço com as avós que na época tinham nomes como Catarina e Heleonora, é claro. O mundo dividia-se, plácido, entre dois grupos: a turma que não tinha idade para entrar na matinê fazia fila para jogar pelada no campinho ao lado e azucrinar os casais fugidios que usavam os fundos do baile pra namorar e a turma que escondia nos bolsos garrafinhas do horrendo uísque Santa Serra e ia pro baile tentar embebedar e apalpar alguma menina, que seria levada para o campo e que seria azucrinada pelos mais novos. Carola, espertíssima, jamais ia com os meninos. Dançava a noite toda até os pés esfolarem, e depois, pontualmente às onze horas, se retirava, indo desaparecer dentro da limousine negra que a levava, supomos naquela época, a um palácio digno de sua condição de princesa. Às vezes trazia uma amiga que também de forma alguma sucumbia ao flertes desajeitados. Mas um dia foi diferente.

Foi um grande assombro quando Carola Caiz desceu tão coquete da limousine negra trazendo Ana María a tiracolo. Seria muito doloroso ter que conviver com duas pequenas deusas inalcançáveis, pois apesar da diferença gritante entre a beleza de ambas, era inegável que nos desprezariam de forma igualitária e democrática. Entraram sem tomar conhecimento da comoção que causavam, já cochichando, e dando risinhos, ao que Carola fazia gestos como se comentasse quem era quem naquela nossa inocente simulação de high society adolescente com fundo musical de rock melosinho.

Aquele baile foi o baile mais memorável de todo o verão. A noite passava e Ana María se mostrava uma rival a altura de Carola, fazendo as sapatilhas rangerem no piso de madeira, sem interrupção. Ciente de que as atenções se dividiam depois de um reinado único, Carola não se contentou e dançou com todos os meninos da Rua Oito de Abril, os rejeitados da oito, pois eram pobres, e tinham o Carlito que era manco da perna esquerda, e para piorar, dizia-se por aí, roubavam carros para ir até o Píer fazer duelo de mergulhos. Pois nessa noite até Carlito foi talentoso e mostrou que dançar com uma perna só pode até ser vantajoso se o que você deseja arrancar das meninas são risos e não beijos. Nessa noite o escuro do céu se rendia às milhões e milhões de estrelas que a vestiam e não satisfeitas se reproduziam no mar calmo e negro. Era a noite certa. Era a noite que seria estampada na memória todas as vezes que nos lembrássemos de qualquer dia do verão passado. Era a noite de Carola e Ana María. E exatamente as onze, essa noite terminou, com nossas meninas suadas e sorridentes, já descalças, fechando definitivamente a porta da limousine, bem na cara das nossas fantasias.

No domingo seguinte, nem Carola, nem Ana María apareceram. E o comentário na cidade era geral, o burburinho era grande. Os pais ignoravam as perguntas insistentes de tantos jovens apaixonados, saudosos do jogar de ombros das meninas quando a uma música agitada se sucedia uma melodiosa versão de Ticket to Ride. Mas o mistério não durou muito tempo, pois logo o jornal da tarde estampou a cara do venerável Senhor Martino Locustre Caiz, pai de Carola, com uma legenda em letras garrafais onde se lia SUBVERSIVO. O homem, dono de quase todos os jornais da região, financiava por baixo dos panos os tablóides que denunciavam os desmandos, assasinatos e roubos do General Abelardo Missuto. Pai e filha estavam desaparecidos, mas a imprensa não oficial dava como certo o exílio de toda a família Locustre Caiz na embaixada francesa. Destino muito melhor que a dos editores do tablóide Brigada Vermelha, mortos sumariamente no episódio que devastou a redação clandestina, as chamas do incêndio subindo pelo céu, se abatendo como um mau agouro por toda a cidade.

Nas ruas do Cabo uma única pessoa chorava mais do que a morte do Brigada Vermelha: Ana María, no alto dos seus doze anos, agora só podia catar as guimbas de cigarro na sarjeta e esperar que a sorte mudasse para melhor depois de ver seus pais, o casal Desadín de ex-guerrilheiros, saindo, já mortos, de dentro da redação. O centro da cidade podia ser um lugar muito difícil para uma menina como Ana María, e não ser Ana María podia ser uma saída. Vagou. Conheceu toda ordem de vagubundos, poetas, cantores, artistas, contrabandistas e ciganos. Principalmente ciganos, que sempre ao vê-la arregalavam os olhos e murmuravam entre si sobre o deserto e a estrela.

Semanas depois, na porta do Café Cinémathèque, Ana María conheceu Lupita Marcone. E ela lhe ensinou a fugir de marujos. E a deixar para trás o passado. E foi assim que Ana María tornou-se Carola Desadín, corista, vendedora de badulaques, amante dos homens, da bebida, da noite e dos palcos, ah!, dos palcos, de onde, por vontade, jamais sairia.

h1

Viagens por lugares inexistentes da América, parte 3.1.

2 Outubro, 2007

E uma bola de fogo cruzou o céu.

Ilustração: Felipe Fernandes

Foi no ano dos grandes vendavais que Lupita Marcone morreu. Ficaram cuidando de seu Dance Club o menino Juanito, que fazia a limpeza, e o velho e caduco Elmo Marcone que contava histórias da época em que o estabelecimento ficava na rota dos mineiros e traficantes de pedras: não havia um homem fosse da Seara de Mattos fosse de Paradise´s Port que não soubesse da formosura de suas meninas. Bons tempos.

- Não é Juanito?

Juanito lá chegara quando o comércio de pedras e das moças já não era mais tão dourado.

- É sim, seu Elmo. Uma belezura.

E os dias passavam. Juanito e o deserto, que antes lutavam entre si (Juanito usava uma vassoura, o deserto usava um vento manso) tornaram-se aliados. Ele fechava as janelas e portas nas horas certas, punha a mula próxima ao poço, que ela não se incomodava de beber água com areia; ia se deitando junto com o sol, fugia do frio e das resmungações do velho. Com o tempo, as palmas de suas mãos foram ficando amarelas e seus olhos refletiam as nuvens que apareciam vez em nunca. Ali sua baixa estatura era vantajosa. Foi ficando sólido, foi ficando homem, foi ficando negro como os povos do sol.

Foi no ano das cinco tormentas que Juanito começou a pensar que seria bom ver o mar. E não sentia culpa por abandonar o deserto, pois os anos o presentearam com uma certeza:  o deserto jamais o deixaria, acontecesse o que acontecesse. Isso lhe dava a paz necessária. Na noite da conclusão deitou-se no pátio interno e ficou ali a fumar e ver estrelas, quando sem mais nem menos uma bola de fogo cruzou o céu. Correu para o lado de fora e ainda teve tempo de ver a bola se tornar um ponto no horizonte e cair com um estrondo. Tudo tremeu. Juanito correu para ver o velho Elmo e foi atravessando a casa, mas quando abriu a segunda porta parou. Estava sentada, ajeitando o vestido uma mulher. Com maleta de couro, sapatos de dança, rouge, carmim e cabelo preso no alto ela estava distraída. Realmente o tremor, o fogo e o estrondo haviam passado. Mas ela parecia não ter ouvido mesmo nada pois levantou os olhos, impassível e estendeu uma mão firme e branca dizendo que se chamava Carola Desadin e que deviam conhecê-la como La Magnifica Carola. Lupita a havia convidado para ser a estrela do Dance Club. Onde estava a velha? Desajeitado pela primeira vez em sua solidez Juanito fez com as mãos para que Carola esperasse. Foi conferir, mas já sabia: o velho Elmo era morto. Decerto o estouro da explosão o matara.

Depois de cobrir o corpo com o lençol, desceu pesado, com as escadas quase cedendo aos seus pés. Tenho um morto, informou à Carola, volto em breve. Seguiu para perto do poço e cavou o mais fundo que pode. Atrás de Juanito, um som de saltinhos. Carola parou na soleira da porta e começou a observar aquele árido cortejo fúnebre: a mula, o poço, Juanito e o morto. Ao fim de tudo, Juanito ajoelhou e fez uma prece rápida. Amanhã fincarei uma boa cruz aqui, falou para si mesmo, espanando a areia dos joelhos.

Continua. 

h1

Diário

14 Setembro, 2007

Falou que era atriz e que fazia muitos clipes demonstrativos. Não perguntei o que eram, mas o trabalho envolvia carrosséis, piscinas com bolas e praias paradisíacas em croma. Fingi que entendi e continuei sorrindo, gesticulando, concordando com a cabeça assim-assim.

Uma vez contou-me que carregava sempre uma tesoura para alguma emergência. Eu disse que carregava comigo papéis e lápis para emergências semelhantes. Ela abriu a bolsa e mostrou que também tinha blocos e canetas e recomendou: talvez não seja suficiente. Passei a ter uma tesoura sempre a mão, para o caso de encontrá-la.

Durante uma bebedeira no bairro oriental ela apareceu com uma garrafa quebrada na mão e ordenou: saia! saia! Peguei sua mão e descemos correndo as ladeiras até o metrô mais próximo. Foi aí que nos beijamos, ela foi pelas escadas e eu caminhei a esmo sem saber pra onde ia.

Algumas semanas depois apareceu na portaria de meu prédio. Tinha flores e pediu para subir. As flores não eram para mim, mas as coloquei em um vaso com água gelada e aspirina. Falou sobre Londres, trens, um emprego com dois Espanhóis bacanas, e da amizade com a moça bonita, aquela, da Nicarágua. A aspirina fez um volteio bonito. O vaso ficou pintado de gotículas. Ela queria uma coca-cola, eu desci no bar para buscar. Na volta, ela dormia no sofá de listras verdes.

Ela dorme. É a única na cidade que ainda sabe dormir

h1

O primeiro post pessoal…

13 Agosto, 2007

a gente sempre esquece.

Escrevo para dizer o quanto me impressiono ainda com São Paulo, depois de longos meses vivendo aqui. Primeiro foram as praças. No Rio, para algo ser praça tem que ter um gramado, umas árvores, uns brinquedinhos enferrujados. Aqui na Paulicéia para ser praça basta existir um barranco embarreado. Alguma entidade vem e coloca lá uma placa pomposa com o nome de um morto: Praça Eulália Matarazzo. Pronto. Tá lá, o barranco sendo promovido.

Aí me acostumei. Montinho de terra, flor ou árvore, tudo pode ser praça. Ok.

Pois então qual não foi minha surpresa quando vi um vão no meio do centro da cidade, perto da Sé com uma placa: Praça Fulaninho de tal. Tomei um susto. Até a não coisa aqui pode ser praça. Como jogariam os velhinhos o seu dominó? Como correriam as crianças com as babás desatentas a olhar os moços?

Estou rendida. São Paulo para mim é absolutamente enigmática.

h1

Noir ou Herança Macabra

31 Julho, 2007

Segurou então a arma que estava presa junto ao corpo. Encostado na parede, abriu a porta com um leve chute. O silêncio voltou a reinar. Não poderia arriscar a relíquia, era seu dever protegê-la. Corajosamente, pulou no corredor com a arma em punho. Olhou para um lado, para o outro, na escada, e nada – apenas um gato, lambendo o próprio corpo, distraído.

Voltou com a arma ao coldre, ajeitou os suspensórios e foi caminhando para o quarto. A mão na maçaneta e uma surpresa: estava trancada.

Ele poderia arrombar a fechadura, como ameaçou fazer. Mas preferiu murmurar:

- Louise, eu sei que você está aí. Abra a porta ou eu atirarei no ferrolho. Eu vou contar até três.

Dois sons agudos seguidos de um estalo, e ela estava lá. Louise segurava um malão e seu corpo sustentava um nínfico vestido preto, que além da cor, em nada era apropriado para uma viúva. Os adjetivos agora pulavam, em seqüência, e não eram nada cristãos. Ela não valia nada, mas tinha os melhores braços e umas pernas que diziam o quão boa dona de casa ela era para o falecido Dr. Morrison.

- Entre, bebé. Não fique parado aí na porta. Ou será que sou uma visita inesperada?

A vontade era de esmurrá-la e beijá-la até que ela não tivesse mais fôlego. Mas se fizesse isso seria a sua perdição. Começou a se vestir, para evitar aquele olhar inquisidor sobre o seu peito, camisa rota,  sobretudo.

- Louise, eu vou levar a relíquia até o porto. Saia do meu caminho, eu já cumpri a minha parte no nosso acordo.

Sorrindo, ela senta numa poltrona em frangalhos. Abre a bolsa. Ele aperta a arma contra o corpo. Ela é louca, ele pensa.

- Calma, bebé. Eu só vou acender um cigarro.

E cruza as pernas tirando um isqueiro prateado da cigarreira dourada. A fumaça azul subia confundindo-se com a luz do neon que piscava moribundo na janela do quarto.

- Querido, você matou o meu marido. E agora eu não vou embarcar sozinha sem você. Ele está morto por nós dois. O Bateau Omnia parte em duas horas. Não há saída. Mas eu também posso chamar a polícia. Duvido que o Inspetor Marlowe o trate tão bem quanto eu trato.

Louca, pensou mais uma vez. E em silêncio, foi até o armário onde estava a Relíquia. Embrulhou o belo Falcão incrustado de diamantes e rubis num jornal vagabundo.

- Você matou seu marido. Louise, você só veio aqui atrás da Relíquia, e ela não será sua.
- Eu não me importo com a Relíquia! É você, bebé! Não seja tolo. A fortuna que eu herdei é suficiente para você ser meu eternamente.

E, angelical, uma alça do vestido escorregou para o ombro, deixando um pedaço generoso do seio direito exposto, para o deleite do olhar. Caminhando, arrebentou um pedaço da liga, deixando as meias de seda escorrerem pelas pernas. O cigarro, atirado no chão, foi prontamente apagado pelo salto da sandália. Louise o enlaçou de tal forma, que não havia como se mover. Os lábios estavam tão colados que ele sentia aquele hálito nauseabundo temperado de Martini.

- Eu não vou fazer nada, Louise. O jogo acabou. Vá embora, agora.

Uma lágrima solitária lavou um pedaço da maquiagem bem cuidada, mas ela não se moveu. Por fim, sorriu e olhou fixamente nos olhos pretos dele.

- Eu sempre soube que você era um covarde. Eu avisei o Inspetor Marlowe. Ele já deve estar aqui, idiota. Você vai apodrecer na cadeia e…

Com um estrondo, um homem entra do quarto com a arma em riste. Marlowe, descabelado e com os olhos injetados aponta a arma para Vincent.

- Vincent! Solte a Sra. Morrisson, agora! Relíquia e Arma no chão! Parado!

Vincent obedeceu lentamente. E levantou os braços. Louise, ao seu lado, tentava se cobrir com o lençol.

- Eu já sei de tudo, Vincent. Os responsáveis serão punidos. A lei não pode mais resolver essa situação, resolvo eu. Sra Morrison, venha até aqui.

Louise, sorrindo foi caminhando até o Inspetor, murmurando agradecimentos. Marlowe, andava de costas, para abrir a passagem para ela, quando Vincent mergulhou no chão, pegou a arma e deu três tiros nas costas da mulher. O cabelo louro e o lençol empapados de sangue.

- Vincent!

E Marlowe correu até ele, em pânico.

- Você já devia tê-la matado! Para que tanta demora?
- Ela é louca, já te disse.

Vincent guarda a arma e abraça ternamente o Inspetor Marlowe.

- A relíquia, está bem?
- Já está no cofre, faz tempo. Deixe a falsa aqui. Despistará a polícia por algum tempo.
- As passagens do Bateau Omina?
- Devem estar no malão da louca, reviste enquanto eu limpo nossas impressões digitais.

- Comprei duas garrafas de Strasbourg para nós.

- Elas são uma fortuna!
- É para nossa Lua de Mel, meu bem. E não esqueça, a partir de agora somos ingleses. E ricos.

h1

Naquele dia (ou do nascimento de algo)

27 Julho, 2007

Foi quando você me contou do homem, que vejam bem, colocava as mãos, os braços, a cabeça e finalmente se enfiava quase até a cintura dentro de um crocodilo gigante que dormitava na beira de um rio. E continuou: é preciso não confiar no animal, é preciso saber que caso a carne fale mais alto, o homem será comido, mesmo que todos se espantem; durante anos e anos ele o alimentou, cuidou e se enfiou goela abaixo, mas um crocodilo é um crocodilo que é um crocodilo.

O dia estava muito frio e eu fiquei com isso na cabeça depois que nos despedimos; no ônibus não havia livros ou fones e na hora do rush os sons da avenida lembravam “é um crocodilo, que é um crocodilo”. E aconteceu então, da palavra dissociar-se completamente das presas de saliva, dos olhos injetados, da boca aberta, da aparência de mais ancestral de todas as ancestralidades: o crocodilo era sílabas tão sonoras e engraçadas que podiam estar num conto infantil, repetindo-se infinitamente, os primeiros fonemas estalando pelo ar, os últimos, macilentos, denunciando a sordidez do seu representante no mundo das coisas.

A sua voz pairava no ar “é um crocodilo, que é um crocodilo” e eu o amei por dar-me de bom grado a palavra que tanto me alegrou. As luzes poluídas transformaram o céu num pega-fogo sem fim, sem horizonte, sem nada e os desenhos estampados no alto me deram algo mais para afogar meu peito. É um crocodilo, murmurei, agora cansada da minha descoberta e o animal foi voltando ao seu lugar imaginado e também seu homem dividido ao meio. Lembrei que talvez perguntasse mais – Era um homem da Austrália? – mas isso denunciaria meu total desinteresse na história e me jogaria num lugar da dúvida mais profunda.

Acredito que depois daquele dia as coisas continuaram exatamente iguais ao que eram antes. Não fui mais triste e nem mais alegre (e na estação de metrô as mesmas pessoas passam e passarão) mas desde então fiquei a procurar palavra que mesmo sem justificativa lógica me puxasse as pontas dos lábios para cima e a encontrei no seu nome, no seu nome, no seu nome.