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Coelho

11 agosto, 2010

E no momento derradeiro, o coelho.  Assim encerraria sua bem sucedida apresentação, afinal, fitas infinitas, moedas insuspeitas, e assistentes desaparecidas são apenas o preâmbulo excitante para que, finalmente, branco e assustadiço, o animal saia da cartola.

Era a última festa do dia, e após o magnífico encerramento, com direito a aplausos infantis, ele poderia voltar ao seu pequeno apartamento e exercitar a mágica pura e verdadeira, a alquimia boa. O coelho mastigaria tristemente seu pé de alface, e ele, logicamente ele, tentaria levitar, ou zapear, ou coisa parecida, depois de pedir pelo telefone uma pizza fria e amarela. E para concretizar essa felicidade, enfiou a mão na cartola:

Sentiu nos dedos a carapaça dura e oca. No lugar de longas orelhas algodoadas, um cone pontiagudo, desafiador. Puxou. Um urro. Puxou novamente. Nada se movia. Puxou então com força – um chifre se pronunciou. Sentado no chão, o mágico, com ajuda dos pés e da assistente de maiô, arrancava da cartola uma besta cinzenta de olhos bovinos. E no palco do buffet infantil, em meio a palhaços resignados e pais bebados de cerveja quente, o rinoceronte.

– Infelizmente, não poderemos pagá-lo. Nosso contrato era claro quanto a coelhos. Não existindo coelho, não há cachê.

Deu de ombros. Amarrou no pescoço do rinoceronte sua gravata de mágico e na noite fria, por uma avenida movimentada, pôs-se a caminhar para casa, arrastando a criatura. Naquela madrugada, remoeu não ter praticado mais vezes os números que compunham aquele espetáculo.

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Correio aos limitantes

21 janeiro, 2010

Que me façam frágil

Dobrável

Quebradiça

Já não poderei verter a mim mesma nesta limitação

Que me convoquem fluida,

Leve

Flutuante

Somente pelo plexo

Onde emaranham vísceras, ossos,

E quem sabe, coração

Mas que percebam

Ao negar as amplitudes

Ao negar os plenos

Ao negar as fortalezas

Jamais chegarão ao fundo

De sua eterna magnitude insular

*post da blogagem coletiva sobre a magreza excessiva imposta as jovens modelos nas semanas de moda.

Mais aqui.

Aqui.

E aqui também.

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Coração de Gengibre

18 janeiro, 2010

Trecho da sinopse e do primeiro diálogo de Coração de Gengibre, meu novo roteiro. 🙂

L.M é um poeta nunca publicado que vive de pequenos bicos e vive nos arredores da Rua Augusta.

Indie é uma stripper obesa que faz shows burlescos para um público muito seleto.

Voluptua: é o inferninho fetichista onde Indie dá seu expediente.

SINOPSE: O poeta L.M espera pelo telefonema que finalmente confirmará a publicação de seu livro e o alçará da condição de biscateiro bissexto a real e consistente gênio da literatura. Para aplacar a ansiedade e a solidão deste momento, ele vaga pelas ruas bebendo e repassando mentalmente seus fracassos, quando abre a porta que o levará ao Voluptua, inferninho dedicado a fetiches em geral. Lá encontra a obesa stripper Indie, que na sua sabedoria filosófica de botequim, lagarteia ao redor L.M, desvelando o seu desgosto com o mundo e com a humanidade.

Indie desce do mastro e senta ao lado de L.M.

Indie: Então teu nome é L.M?

L.M: Meu nome não é L.M, mas todo mundo me chama assim, entendeu?

Indie: E quando vc escreve teus livrinhos de poesia, tu assina L.M?

L.M: Eu não assino nada ainda por que ainda não publiquei nada. Mas quando publicarem vou assinar L.M Fonseca. Acho bom.

Indie: L.M Fonseca é nome de pobre. Aliás, L.M é nome de pobre. Cigarrinho vagabundo…

Indie acende um cigarro.

L.M: Vagabundo na tua terra. Conheço muita gente boa que fuma LM. Gente fina, gente com grana. Gente com emprego, conta no banco e o caralho.

Indie: Tem gosto pra tudo nesse mundo… Mas por exemplo, Carlton é muito mais bonito. Parece nome de filme, o Carlton vai salvar o mundo, trepar com a mocinha magrinha numa praia deserta, ganhar o milhão…

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Canto de Água

7 outubro, 2009

* poesia perdida, escrita por mim e encontrada por alexandre beanes. 🙂 Antes ela se chamava Das Garrafas.

Da primeira garrafa

Lembro do agudo estridente

E das outras

Não sei

Jogadas ao mar

Com meu grito

Com meu alerta

Com minha estranha maneira

De selar mensagens

De jogar ao mar

Entranhas

Da primeira garrafa

Conheço o alento

Imediato

E das outras

Ainda não sei

Jogadas ao mar

Com minhas notas

Com meus bilhetes

Com minhas contas a pagar

Com as moças chorosas

Com a mãe chorosa

E com mais quem quiser chorar

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Porcelana

9 junho, 2009

Derreto o açúcar aveludado na língua: a colher fria, emborcada na boca, se demora, demora.

Já disseram que é assim que funciona, já disseram que não sou a única, já disseram que bastava olhar a minha esquerda, já disseram tudo e tanta coisa, eu mesma não posso avaliar: choro. Rio como doida. Pego ônibus. Vou ao trabalho. Leio notícias nos jornais. Extremo do extremo: falo ao telefone. Como posso eu, ainda, falar ao telefone?

Derreto o açúcar aveludado na língua: a fria colher, emborcada na boca, se demora, demora.

Escrevo na carne dele uma história triste, um conto de abandono, um romance adocicado. A moça, vejam bem, encantada, não o reconhece. Depois de tantos esforços para trazê-la de volta ao mundo, o fracasso. Abandonada pela razão, ela afoga-se no rio, só podemos enxergar seus cabelos flutuando contra as pedras, numa clara sugestão da sua morte. Esperamos, inutilmente que venha um artíficie sobrenatural (Deus. Fadas.) que acorde a moça de seu sono encharcado. Mas nada vem. Nada.

Derreto o açúcar aveludado na língua: a fria colher, emborcada na boca, se demora, demora.

Limpo com o cotonete minúsculas pecinhas de porcelana. Mini-caixinhas. Vasinhos. A poeira: invasora. Apossa a olhos vistos lustres, aparadores, bancadas, prateleiras. Nesses casos ela é varrida sem sobressalto. Já nas pequenas coleções, nas frágeis porcelanas, ela pouco a pouco se instala. Aproveita-se, para que, com tempo e sorte, ninguém a veja e assim possa amalgamar-se ao objeto e aproveitando-se da umidade poder colar-se a qualquer superfície, principalmente as imunes, principalmente as lisas, principalmente as antes invioláveis. As arestas ficam inalcançáveis e as quinas enegrecem de forma insuspeita e silenciosa. Venceram, afinal.

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POR VOCÊ EU MUDO DE ESTADO

14 outubro, 2008

Rachado solo, esfarela
Seca grande
Queima planta, plantação
No vão do meu peito sólido
A terra quente agüenta
O tempo também quente
Que me contam ser verão

Rasga o céu um dia azul
Um estouro de retina
Luz fotometrada
Para aridez completa
De um peito sem água

Por você eu mudo de estado
Antiga e calma pedra
Para leito sem controle
De margens amolecidas
E de lama fértil

Quem nesse dia
Ou nesta mesma situação
Não pediu chuva, alagamento
Sermão ou prece?
Tempestade que lave
Este pó
Esta poeira
Quem nunca clamou?

Neste corpo pequeno
Amalgama de amor e chão

Uma luta se desenrola, épica
Onde uma veia de tradição
Ou uma linhagem velha
Decidem
Para onde vai o sangue
Em que artéria de vida
Corre o meu lugar.

Por você eu mudo de estado
Do meu canal seco
Ao lençol mais profundo
Aceito ser rio
Mesmo sem correr para o mar